AKG K7XX

INTRODUÇÃO

Há não tanto tempo, a ideia de fones de ouvido de mil ou dois mil dólares não era tão difundida – você até conseguia encontrar um ou outro produto que quebrava essa barreira, como os Stax ou edições limitadas a la Sony MDR-R10, mas os topos de linha “comuns” dificilmente ultrapassavam os 500 dólares.

E, na década de 2000, havia três fones que eram os queridinhos do mercado audiófilo: Sennheiser HD600, AKG K701 e Beyerdynamic DT880 Premium.

Inclusive, quando estava começando no hobby, meu primeiro headphone mais sofisticado foi justamente um K701. Isto porque, à época, tinha apenas dois in-ears, o Shure SE530 e o Sennheiser IE8 – e me interessava a ideia da maior espacialidade proporcionada por headphones. O AKG era famoso pelo seu palco sonoro, que era considerado um dos melhores disponíveis no mercado.

AKG K702 65th Anniversary Edition

Desde então, esse mercado mudou bastante. Mas o AKG K701 continuou muito presente, e deu origem a diversas variantes: K702, Q701, K702 65th Anniversary Edition e K712 Pro.

O mais recente é o que tenho para avaliação agora, o K7XX. Trata-se da primeira de muitas edições colaborativas feitas pela Massdrop, um serviço de compras coletivas, com fabricantes de equipamentos de som. Ele é basicamente um K702th 65 Anniversary Edition com alterações estéticas – o que significa que ele conta com cabo removível, espumas de memória nas almofadas e a versão mais recente do arco, que traz melhorias no conforto em relação ao bom e velho K701.

Mas as entranhas continuam as mesmas, então aqui você tem todos os atributos que fizeram essa linha da AKG se tornar tão querida entre os entusiastas.

O melhor, porém, é o preço: como ele é feito em conjunto com a Massdrop, o K7XX custa apenas 200 dólares – bem menos que os quase US$500 cobrados pela edição de aniversário do K702.

ASPECTOS FÍSICOS

O K7XX é um circunaural grande, feito exclusivamente para uso doméstico. 

Esteticamente, acho esse fone lindo. Sempre gostei do K701 e do K702, mas as cores não são tão usuais. Como gosto muito de preto, o K7XX me encanta por trazer um visual stealth bem elegante.

O conforto é muito bom. Ele é leve, e não há pressão lateral ou superior significativa. Mas as espumas poderiam ser um pouco mais macias. Elas são de memória, mas em minha opinião ainda são duras. Isso fica evidente quando comparadas às do Sony WH-1000XM3, por exemplo.

O cabo é removível, o que é bom, mas por meio de um conector mini-XLR – isso reforça suas raízes do mundo profissional, mas não é muito conveniente, principalmente em um mercado com outras opções mais universais, como um TRS comum, utilizado por tantos outros fones. O cabo, aliás, é a única coisa inclusa na caixa. Ao final, há um TRS 3,5mm com adaptador rosqueável para ¼ de polegada.

Vale observar, também, que este é um fone aberto. Ou seja, não há isolamento significativo de ruídos externos, e os que estiverem ao seu lado irão conseguir escutar o que você está ouvindo.

O SOM

Lembro que, quando tinha o K701, não concordava com o consenso de que sua sonoridade era analítica. Para os meus ouvidos, ele nunca foi tão estéril quanto um HD800, por exemplo. Mas ele era, sim, um fone com graves bastante lineares e sem nenhum exagero, e regiões mais altas presentes. 

Já quando testei o K702 65th Anniversary Edition, fiquei surpreso com o quanto ele era parecido com o Sennheiser HD650 que tinha na época – que é um fone amplamente visto como mais fechado e musical.

O que ouço aqui, com o K7XX, está em um meio termo entre os dois. Com ele, tenho uma sonoridade que considero musical, mas que é decididamente leve, arejada e espacial.

Vamos começar pelos graves, que para muitos eram justamente o maior problema do K701. Ao mesmo tempo em que não os considero tímidos, e sinto uma ótima presença em geral, vejo que a extensão poderia ser um pouco melhor para os padrões atuais de headphones mais sofisticados e até mesmo de in-ears. 

Há um decaimento significativo nos médio-graves, e o resultado é curioso: para gêneros como jazz ou rock, em que um contrabaixo ou o kick de um bumbo de bateria vão tocar as frequências mais graves que você vai encontrar, o desempenho do K7XX é excelente. A presença é a ideal, e os graves têm bastante corpo e texturização. Por exemplo, os baixos da Jimmy Jazz da Carla Bruni ou a The Rugged Truth, do Stanley Clarke, são absolutamente impecáveis. 

Porém, para gêneros mais modernos, com sons eletrônicos, como a DNA do Kendrick Lamar, a So They Say da Rukhsana Merrise ou ainda a Like You Used To, do Kidnap Kid, os graves podem se tornar ligeiramente ocos e com pouca presença, porque não há o respaldo necessário dos sub-graves.

Não encaro isso exatamente como um defeito, visto que a personalidade resultante pode ser muito benéfica para gêneros acústicos, porque a maneira como esse AKG renderiza um contrabaixo acústico é sim bastante realista. E, mesmo para música eletrônica, não é ruim – longe disso. A Our Way da Kamatos fica ótima, assim como a Main Girl da Charlotte Cardin. E só que, se seu foco são esses estilos, talvez existam opções mais indicadas.

Já os médios são consideravelmente naturais, e de forma alguma agressivos. Porém, eles apresentam uma personalidade mais leve, espacial e etérea. Isso pode ser ótimo, especialmente para música clássica, porque há uma grande sensação de arejamento e espacialidade. 

O K7XX de fato projeta uma imagem bastante grande, que se estende muito para os lados – o que também pode ser bem interessante para jogos. Pelo preço, este fone continua sendo uma das opções mais interessantes do mercado se o que você busca é espacialidade. Obviamente ele não atinge o nível de um HD800, e a precisão espacial não é a mesma da que tenho com o N90Q. Porém, é bastante perceptível o quanto ele traz a sensação de um espaço grande onde a música acontece.

Ao mesmo tempo, existe um preço a se pagar: em alguns casos, gostaria de um pouco mais de corpo nas vozes, e essa característica mais etérea acaba me trazendo a sensação de falta de foco e não tanta definição de uma imagem central. Tenho a sensação de que essas vozes acabam ficando um pouco “perdidas” na apresentação do AKG. Evidentemente não posso esperar aqui a definição, a transparência e o detalhamento que tenho com o N90Q – com ele, sinto que os vocais são mais definidos, destacados e tridimensionais -, mas o próprio K240 MKII, que é um fone bem mais simples, em algumas faixas se mostra mais bem resolvido nesse quesito, apesar de ser audivelmente inferior em termos gerais. A sensação é que, surpreendentemente, eu esperava um pouco mais de detalhamento, precisão e recorte na sonoridade do K7XX – ao menos em relação ao que me lembro do antigo K701.

Por conta disso, apesar de em muitas situações gostar da maneira como ele me apresenta a região média – principalmente com música clássica -, em outras ela poderia ser melhor. É engraçado porque os Sennheisers HD600 e HD650, que são até mais antigos, apesar de não serem perfeitos (há bastante granulação), são mais interessantes em minha opinião. Em compensação, é importante observar que estamos falando de um fone que nessa versão custa 200 dólares – então, seu concorrente direto na linha da Sennheiser é na realidade o HD599. Não sei como ele toca, mas a briga com seu antecessor, o HD598, seria boa – e acredito que eu optaria pelo AKG.

Já os agudos, que eram o Calcanhar de Aquiles do K701, aqui definitivamente não representam nenhum problema. Os agudos perfurantes que muitos ouviam no modelo antigo não estão presentes. Mesmo gravações que sei que possuem problemas nesse quesito, como a Our Way da Kamatos, não é nem um pouco agressiva.

Os médio-agudos me parecem sim levemente incrementados, mas não é nada significativo. As regiões mais altas são bem comportadas – não chamam a atenção e nem soam recuadas. O timbre também é competente, e não tenho do que reclamar. 

CONCLUSÕES

Talvez eu tenha feito mais críticas do que o K7XX merece. Esse é, sim, um excelente fone – principalmente pelo preço.

Sua sonoridade é natural, equilibrada e excepcionalmente espacial e arejada. Se você nunca tiver testado um fone aberto antes, esse AKG pode te trazer uma revelação. A questão, porém, é que isso vem a um custo: essa qualidade etérea faz com que sua sonoridade talvez seja leve demais, e que por vezes haja uma sensação de falta de corpo e foco que pode me incomodar.

De qualquer maneira, isso não invalida suas habilidades. Dependendo do que você ouve, e de suas preferências pessoais, é possível que, pelo que o K7XX custa, não haja opção melhor no mercado.

 

AKG K7XX – US$200,00

  • Circunaural dinâmico aberto
  • Sensibilidade (1 mW): 105 dB/V
  • Impedância (1kHz): 62Ω
  • Resposta de Frequências: 10Hz-39kHz

 

Equipamentos Associados:

PC personalizado, Benchmark DAC1 PRE

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