AKG K1000, POR ONDE COMEÇAR

Se você é daqueles que pouco se importa com música (algo difícil); ou se importa pouco com fones e equipamentos ligado a áudio, certamente se cruzar com alguém com um fone deste, será surpreendido. Este é um exemplar muito diferente, estranho, desajeitado e, dentro do hobby, idolatrado por ser uma lenda.

O austríaco de 1989, de fato chama muito a atenção, pois fones de ouvido estão grudados na orelha; quer dizer, menos neste caso e mais um que tenho conhecimento. E que interessante vir da AKG, uma das grandes marcas e que é, também, uma das mais ousadas. Outro projeto bastante interessante dela, é o N90Q, um fone que joga pesado com tecnologias – DSP – e o resultado é excelente.

O universo dos fones tem protótipos diferentes do que estamos habituados a ver nos equipamentos que chegam ao mercado, e a ousadia da proposta do K1000, ainda permanece como objetivo, inclusive dos seus mentores Helmut Ryback e Heinz Renner, com o MySphere, hoje na versão 3.1. Simplificadamente, essa é uma proposta que busca conciliar duas formas de ouvir música. A ideia é ter a vantagem espacial das caixas de som, aliada à conveniência de ouvir através de um fone. E o objetivo é atingido em boa medida. Ele tem, sem sombra de dúvidas, a melhor definição de palco que se pode desejar. É melhor que o HD800, o que é muito satisfatório. E nos estilos e gravações certas, além da projeção do palco excelente, vem junto a incrível sensação de ambiência e espacialidade.

Pude passar seis dias com o fone e, no sétimo, levei para o dono e amigos em um encontro, em São Paulo. Antes de mais nada, obrigado Paulo, dono do K1000. Vale dizer que em 6 dias, na minha condição específica, não posso dizer que conheço profundamente este fone e sua resposta às mais variadas situações possíveis. Foi um convívio breve que gostaria de compartilhar de outros modos, mas não exatamente como uma análise, já tão bem relatada pelo Leonardo em duas ocasiões. Vou direto ao assunto, já que muito mais está dito naqueles textos.

Vamos falar de som.

Confesso que esperava menos dele, mesmo tendo lido mais de uma vez as análises do Leonardo, há um bocado de tempo atrás. Duas coisas, porém, me impressionaram de início. Curiosamente, a primeira surpresa foi a resposta de graves; e a segunda foi a quantidade de detalhes que ele consegue trazer aos teus ouvidos. E não foi o palco sonoro, que, claro, impressiona, pois é diferente de todos os demais. Mas, de certo modo, eu esperava algo diferente aqui. Confesso que foi melhor constatar isso de perto, já que há uma enorme confusão entre espacialidade e palco. Esse fone projeta muito bem o palco sonoro da música a sua frente de modo não artificial, embora não seja exatamente parecido como o sweet spot de bons sistemas de caixas. Deixemos pontuado que este austríaco, ao menos para mim, está à frente dos outros fones que encostam nas orelhas, mas ainda assim, nas situações que as músicas são complexas, perde-se um pouco da eficiência em relação à espacialidade. Embora a música esteja melhor projetada a sua frente, lado esquerdo e direito, nem sempre haverá um bom recorte da posição dos instrumentos e as relações destes na música. Não se trata de uma crítica à resolução do fone, que as vezes fica prejudicada, mas como a falta dela prejudica o bom posicionamento dos sons em um espaço definido. O contrário ocorre com músicas acústicas, eruditas, jazz em geral e binaurais, bastante satisfatórias, mas que, no K1000, ficam melhores, e realmente supreendem.
Rock, em boa medida, é bom. Falta porém, pra mim, mais punch, embora haja algum impacto e extensão, mas nos últimos Hz, é perceptível o roll-off. Isso não é notoriamente um problema grande que invalide-o para o gênero, e em várias músicas há uma sonoridade que anima. Ele começa a ter maior dificuldade com músicas complexas, como dito. E se houver um grande número de instrumentos e o ritmo for mais acelerado, piora. As coisas poderão ficar emboladas, ou menos definidas do que em um HD800, Clear e LCD-XC – este último um fone fechado, que poderia levar alguma desvantagem. Mesmo em álbuns com mais dinâmica, haverá certa dificuldade; uma massa onde é difícil distinguir as posições com maior precisão. A resolução do K1000, em suma, mesmo quando bem amplificado, é boa, mas não é das melhores, embora haja boa dose de transparência.

O K1000 é um fone neutro, ou seja, na maior parte do tempo, sua reprodução musical não privilegia qualquer frequência (obrigado Brunão). É bem verdade que os agudos não têm o grau de refinamento de um Audeze LCD-3, que é mais doce e encantador; nem o ataque do Focal Clear ou o HE-6, que mesmo com excelente refinamento, apresentam na cara do ouvinte todo o brilho da música. Aqui eles vêm de forma mais contida, sem jogar a música na cara e sem o refinamento dos fones citados – embora ocupem espaço próprio no espectro, ao contrário dos relatos que li, derivados da extrema exigência quanto a amplificação e dificuldades em obter sinergia. Há uma boa dose de agudos, que não parece estar recuado, e bom equilíbrio deles na reprodução musical.

Os médios é que reservam a maior experiência do fone. Parece-me que eles saltam no espectro. Um fone de médios marcantes, embora em muitas ocasiões, eu sinta falta de mais naturalidade e, de novo, maior refinamento. A grande experiência aqui não é relativa à qualidade em si, mas sim à proporção. A primeira vez que coloquei o fone, como disse, me impressionou os graves, porque eu simplesmente não esperava aquela resposta bastante satisfatória; e a apresentação dos detalhes, que em grande parte, se deve à boa solução entre os médios e agudos, e transições, e como os graves não interferem nas médias e altas. É curioso, pois justamente os médios e agudos desse fone, de leituras diversas e das avaliações feitas neste site, me parecia ser os piores pontos – sobretudo quando mal amplificados. E a resolução ficava prejudicada.

E estas características, aqui, foi algo que não senti. Confiava que não teria problemas de amplificação quando me ofereceram o K1000 para esses 6 dias. Só suspeitava da sinergia. E realmente não tive, afinal, para 100Ω, o V281 entrega 5,6W (5600mW). E o K1000 tem 120Ω. A Violectric está entre as maiores marcas de amplificadores e o modelo V281, está entre os amplificadores mais competentes que já ouvi. Ainda não achei nenhum fone que não ficasse bom aqui, incluindo o HD800, que por ser bastante analítico, torna chata a sinergia com os equipamentos auxiliares. Claro, dentro de um certo consenso estabelecido, o HD800 casa melhor com valvulados, mas não por isso poderia dizer que o som está ruim aqui. Longe disso, aliás. No hobby, a caminhada da amplificação é algo muito gostoso, embora dispendioso – em tempo e dinheiro. Ainda assim, vale experimentar ligando esse faminto de apenas 74dB de sensibilidade, nos Chord Mojo e Hugo. O fato é que o K1000 é um desses casos que aprendemos o verdadeiro significado da palavra amplificar, que difere, por exemplo, de ter volume. O austríaco chegou aqui em boa hora, pois já estava com todo o aparato que também alimenta o guloso HE-6, meu headphone de referência, e que como essa outra lenda, ensina muito sobre o assunto.

E no término desses 6 dias, houve um encontro aqui em São Paulo, que juntou o Violectric V281 com DNA Stratus e iFi Pro iCAN, outros dois que prometem amplificar o K1000 com maestria. Lá montamos alguns setups interessantes. O Pro iCAN foi alimentado todo o tempo pelo Chord Hugo; o V281 pelo Denafrips Pontus e o DNA Stratus, em uma parte do tempo pelo Hugo e depois colocamos no Pontus. O fato de encontros serem barulhentos, não torna o ambiente ideal, mas é um bom local para se ter um primeiro contato ou relembrar. Por este motivo, pedi aos participantes para contribuírem com as suas pequenas impressões sobre essa lenda. Vamos a elas:

Moreno A. Hassem
“Minha primeira impressão do K1000 foi a de encará-lo como caixas de som que a AKG deixa você carregar próxima as suas orelhas. Apesar do formato fone de ouvido dos Flintstones, estes fones realmente soam como monitores de estúdio calibrados para ficar próximos aos seus ouvidos, com uma resposta surpreendente. São bastante precisos, agradáveis e, mesmo não tendo qualquer isolamento acústico, são incrivelmente detalhados e com graves definidos. Certamente não são os fones mais fáceis de empurrar, mas se você tem amplificador para isso, vale o investimento nessas latinhas exóticas!”

Diego Freitas
“No K1000, a experiência auditiva não é a de um headphone convencional, onde as almofadas suportam o peso e ajudam a definir a acústica, nem como speakers já que ele não tem o crossfeed natural de caixas em um ambiente controlado.
Se nem o design peculiar, a absurda dificuldade em empurrá-lo, a falta de conforto, ou o preço te afastam, quem sou eu para dizer que as exóticas K1000 não vale a experiência.”

Giovanni Trude
“O que achei do K1000? Extremamente divertido; um fone de médios muito macios e graves bem precisos e fortes e uma imagem excelente para fone de ouvido. Uma das melhores, na minha opinião. Pelo pouco que escutei, fiquei surpreso e curioso para testar outros ajustes, mas fiquei bem surpreso por ser rico em detalhes e ter médios excelentes.”

Rene Ramirez
“Pode-se dizer que é um fone, mas é mais um sistema de caixas suspensas, com características muito similares. Não há uma impressão de ter som de fone de ouvido. Os graves são bem presentes e texturizados e o som geral é excelente, mas em nada pode-se dizer que se destaca, como ocorre em alguns fones, em relação aos quais ele é superior em algumas características. É um fone clássico, mas não é algo pra ser usado no dia a dia; e sim para ser preservado.”

Alexandre Nishikawa

“Em suma: achei ele muito interessante porque representa um pouco a experiência de caixas, mas na forma de fone de ouvido. Surpreendentemente, tem mais graves do que eu esperava, apesar de ter 0 sub-graves – obvio, já que é tão aberto. Os graves têm mais impacto do que eu esperava e os médios e agudos têm uma apresentação bem legal; não sei se diria “natural”, mas a espacialidade que eles proporcionam, fazem a experiência ser bem interessante e que é, mais ou menos, o que eu procuro nos meus fones hoje, ou seja, a melhor maneira de me aproximar da experiência das caixas. O K1000, embora muito desconfortável, é um meio termo entre a experiência de fones e caixas de som.”
Glauber Trude
“O AKG K1000 é um fone que todo hobista deveria ouvir um dia. É um fone que a princípio assusta e é desconfortável, mas na primeira nota, você esquece aquela sensação estranha de apoio, pois ele é soberbo e pode se tornar perfeito a cada ajuste angular dos falantes. Eu jamais ouvi um soundstage tão maravilhoso e tão arejado. Extremamente holográfico e orgânico, sem causar fadiga auditiva alguma. Ele te entrega musica e apenas música.”

Entre outros, cantaram:

  • Hed Hot Chili Peppers – 16/44 (The Uplift Mofo Party Plan);
  • Sun Ra – 16/44 (Jazz In Silhouette);
  • Kamasi Washington – 16/44 (Heaven and Earth);
  • Diana Krall – DSD64 (Love Scenes)
  • Steely Dan – “Do It Again”, “Babylon Sisters” e “Peg” – Tidal (Can´t Buy A Thrill, Gaucho e Aja);
  • Thundercat – “Uh Uh”, “Them Changes”, “A Fan´s Mail” e “Show You The Way” – Tidal (Drunk);
  • Daft Punk – “Give Life Back To Music” e “Get Lucky” – DSD128 (Random Access Memories);
  • Pink Floyd – 16/44 (The Dark Side Of The Moon);
  • Norah Jones – 16/48 (Live in New);
  • Michael Jackson – “Thriller” e “Billie Jean” – 16/44 (Thriller).

Equipamentos Associados:

  • Samsung Galaxy S9+ e UAPP;
  • PC Windows e Audirvana Plus;
  • Chord Hugo (DAC e Amp);
  • iFi micro iDSD BL (DAC e Amp);
  • Chord Mojo (DAC e Amp);
  • Violectric V281 (amp).
  • Denafrips Pontus (no encontro);
  • iFi Pro iCAN (no encontro);
  • DNA Stratus e a famosa saída XLR “K1000” (no encontro).
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