Sennheiser HE90 Orpheus

Antes de qualquer coisa, quero agradecer imensamente ao meu amigo, uma pessoa de uma generosidade como já vi poucas vezes antes, por ter me proporcionado a incrível experiência de passar um mês com esse fone.

INTRODUÇÃO

Sennheiser Orpheus

Esse review trata do que é considerado por muitos como o melhor fone de ouvido já produzido: o Sennheiser HE90, mais conhecido como Orpheus.

O fone foi criado pela marca como um “statement product”, ou seja, um produto para mostrar do que a a Sennheiser é realmente capaz – deixando claro que ela tem capacidade para competir (e até mesmo ganhar) dos fones produzidos pela japonesa Stax. Soa familiar? Pois é. Quem leu a avaliação do SR-007, vai lembrar que o SR-Omega original foi desenvolvido justamente como uma resposta ao Orpheus. Rixa interessante, não é? Afinal, nos trouxe quatro dos melhores fones já fabricados: Sennheiser HE90 e HE60, e Stax SR-Omega e SR-007. Nada como uma boa briga de fabricantes!

A gigante alemã resolveu criar um fone eletrostático, o que faz sentido, visto que a tecnologia é em boa parte dos casos superior às alternativas. Portanto, o HE90 foi lançado como um sistema, composto pelo fone e pelo energizer valvulado HEV90, que também possuía uma seção de DAC. O lançamento foi no início da década de 90, e apenas 300 unidades foram produzidas. O sistema custava a bagatela de US$15.000, com a possibilidade de comprar fones adicionais por US$7.500. No entanto, no início da década de 2000, houve uma petição organizada por membros do fórum head-fi para o Jan Meier, dono da Meier Audio e então representante da Sennheiser. A marca concordou em fabricar mais 30 unidades do HE90. O fone em questão é uma dessas unidades, mais precisamente a de número 17.

Como qualquer bom “statement” product, o HE90 é bem impressionante tecnicamente. Os estatores são fabricados a partir de um vidro especial, e o diafragma em si carregado com partículas de ouro. O processo de fabricação é tão complexo que para cada diafragma produzido, outros nove vão para o lixo. Aí já fica clara uma das grandes razões para um preço tão alto. Há boatos, inclusive, que dizem que a Sennheiser nunca ganhou um centavo com a produção do Orpheus. Isso é visto com alguma frequência em produtos desse tipo – no mundo dos carros, Porsche 959 e Bugatti Veyron vêm imediatamente à cabeça. Eles não são produtos feitos para trazer lucro à marca, mas sim para mostrar ao mundo do que elas são verdadeiramente capazes com o tempo e o dinheiro necessários.

HEV90

O HEV90 já não é tão fantástico hoje em dia, e é considerado um limitante à performance do HE90, principalmente se considerarmos seu uso com o DAC interno: não se esqueçam que é um produto de 20 anos, o que pode não ser muito no caso do fone – friamente falando, pouco progresso foi feito nessa área até hoje –, mas falando de um equipamento digital, é bastante. Esse set em particular é empurrado por um HeadAmp Aristaeus, basicamente um clone do HEV90, mas sem a seção de DAC e com componentes consideravelmente melhores. Pelo que dizem, o resultado final é consideravelmente melhor.

O resto do sistema é aquele que uso na maior parte dos casos, com um iMac como transporte e Cambridge Audio DacMagic e Electrocompaniet ECD-1 como fontes. Também já tive o prazer de testar o fone com o Meitner CDSA, mas foram audições relativamente curtas, então o grosso das impressões dessa avaliação é de acordo com os dois DACs.

 

ASPECTOS FÍSICOS

Pelo preço, é natural que se espere perfeição: e é exatamente o que se tem. O fone vem numa luxuosa caixa de madeira, forrada internamente com seda azul. Ele é feito inteiramente de madeira, metal, couro e de um tecido aveludado, onde os pads tocam a cabeça.

Conector

É um grande circunaural, com um formato muito parecido com o do primo distante HD600, mas muito maior. O corforto é tão bom quanto – se não superior – o do Stax SR-007, o que o torna um dos dois fones mais confortáveis que já usei. O HE90 não é particularmente pesado, e a pressão que ele exerce na lateral da cabeça é ideal. O tecido aveludado dos pads diminui o calor, algo que não acontece quando a peça é inteira de couro – como no caso do Stax. Para muitos, esse detalhe é de suma importância.

O cabo é muito longo, mas não me parece um exemplo de resitência. Ele é consideravelmente mais fino que o do SR-007, o que pode não inspirar confiança. Mas, como vi no caso do B&O A8, espessura não quer necessariamente dizer que ele não seja resistente. O conector, em contrapartida, é quase uma arma. É bem grande, pesado e transmite muita solidez com seu encaixe seco e preciso no energizer. É consideravelmente melhor que os dos Stax.

O Aristaeus é também um atestado da excelência da HeadAmp na arte de construir equipamentos. O acabamento é excepcional! A pintura da carcaça de metal é provavelmente feita com diversas camadas, porque o preto é anormalmente puro e apresenta uma grande profundidade de cor. Os decalques em madeira também são uma boa adição ao amplificador, fazendo com que ele assuma uma personalidade mais clássica, que combina melhor com o Orpheus.

 

O SOM

Por onde começar, quando se está falando de um fone dessa estirpe?

HE90

Acho complicado dizer que esse é um fone perfeito. No final das contas, não deixa de ser uma questão subjetiva. Mas é sem dúvida alguma, para mim, o mais perto disso que já ouvi – por uma longa margem.

A começar pelos graves: já ouvi vários fones e várias caixas de som, em inúmeros sistemas verdadeiramente high-end – como Wilson Audio Puppy, Morel Fat Lady, Revel Ultima Salon, Jamo R907, Klipsch Palladium P39F, Dali Helicon… e não tenho medo ao afirmar que os graves do Orpheus são os melhores que já ouvi. A textura, o detalhamento, o impacto e a extensão são de uma perfeição que nunca ouvi em outro lugar. Cada nota, cada raspada dos dedos do baixista nas cordas do instrumento, cada respiro num saxofone barítono são ouvidos com extrema clareza e com um realismo sem precedentes. É inacreditável. Pela primeira vez, tenho a sensação de que quem impõe o limite não é o fone, é a gravação. O que quer que esteja lá vai ser mostrado de forma absolutamente fiel pelo Orpheus.

Em termos de quantidade, me parecem absolutamente passivos, e assim como o JH13Pro, dependem inteiramente da fonte. Se estiver lá, ele vai mostrar. Se não estiverem, ele não vai colocar. Ponto final.

Sobre os médios, posso simplesmente copiar o que disse acima. Perfeição. Essa faixa de frequências costuma ser difícil porque qualquer tipo de pico ou vale é imediatamente percebido pelo ouvinte. Por exemplo, considero o K701 excelente por sua linearidade nos médios, enquanto o HD600 – apesar preferí-lo ao AKG – não é tão bem resolvido assim nesse quesito.

Além disso, médios sofrem muita interferência dos graves e agudos, então não é exatamente difícil arruinar a performance de um fone na região média com graves ou agudos muito alterados. O que acontece é que acabamos tendo uma percepção diferente deles quando os comparamos às outras faixas de frequência.

Diafragma do HE90

No Orpheus, a progressão dos graves aos médios é absolutamente perfeita – eles apresentam o mesmo peso, calor e neutralidade das baixas frequências. O HE90 sem dúvida alguma tem a performance em vocais mais convincente que já pude ouvir em fones de ouvido. Instrumentos não ficam para trás, e a pura organicidade com que ele convém qualquer coisa que passe por ele é estarrecedora. Essa organicidade é uma característica que demanda gravações de altíssimo nível para ser apreciada – mas, quando se tem uma gravação dessas, o resultado é muito surpreendente.

Aliás, um outro aspecto do Orpheus que é de cair o queixo e adiciona uma boa quantidade de realismo à sua performance é o palco sonoro. O que acontece é que fones normais projetam o som dentro da sua cabeça, ou no máximo imediatamente à frente dos seus ouvidos. O AKG K1000, que é completamente diferente de todos os outros fones, apresenta um pequeno palco à frente dos olhos do ouvinte. O HE90 é completamente diferente porque ele parece te colocar na sala onde a música acontece. É, literalmente, como se ele fosse uma janela para a performance; os sons realmente não parecem vir do fone, mas sim, de fora. É algo realmente incrível.

Existe uma questão, no entanto: me sinto na obrigação de ser sincero com o leitor e dizer que não tenho certeza se essa minha impressão deve-se ao fato de eu já ter lido sobre isso, ou se é de fato algo que percebi naturalmente. O palco sonoro do HE90 é um pouco difuso, ou seja, ele não é, em muitos casos, a última palavra em precisão no posicionamento dos instrumentos. Essa é uma característica que me agrada muito, porque é uma experiência mais imersiva. Entretanto, alguns podem preferir um palco e recorte com maior especificidade no posicionamento dos instrumentos.

Inclusive, como todo bom eletrostático – porém ainda melhor –, a capacidade de resolução é virtualmente infinita. Lembram do que eu disse sobre o Stax? Que não existem passagens complexas para ele? No Orpheus, isso é ainda mais evidente. Temos aí um palco sonoro impressionante, com camadas muito bem resolvidas mesmo nas passagens mais complicadas.

HeadAmp Aristaeus

Os agudos, em compensação, não são tão simples. A primeira impressão que tive é que eles eram ligeiramente mais presentes do que deveriam, o que costuma fazer com que a performance para gêneros mais pesados seja comprometida. O problema é que quando agudos são mais felizes, a sonoridade geral parece mais fria, e o nível aparente de detalhes parece retirar o peso dos médios e graves – a impressão que se tem é que é muita informação, e elas tiram a atenção da agressividade necessária nas frequências mais abaixo.

O problema, nesse caso, é que com peças acústicas, os agudos são novamente perfeitos –principalmente em música erudita. O detalhamento é impressionante, e assim como no SR-007, eles não são jogados na cara do ouvinte. Apesar de o HE90 ser ainda mais detalhado, essa habilidade se mantém. A extensão beira o ridículo – no bom sentido –, e a presença dos agudos, como um toque final no perfeito resto do espectro de frequências, compõe uma tonalidade spot-on em peças não tão frenéticas. Eles também apresentam excelente corpo, algo com o qual costumo ser sensível.

Não me entendam mal – não é que ele não toque rock bem, ele toca, e não é pouco, mas acho que, nesses estilos, o JH13Pro por exemplo tem mais energia e autoridade. Ele soa, no final das contas, mais neutro. Mas aí vem a pergunta… o que é neutro?

Earcups do HE90

A pura quantidade de etapas e processos para que a performance original chegue ao ouvinte é imensa, e acaba que neutralidade é nada além de uma utopia audiófila, principalmente quando estamos falando de instrumentos amplificados – nesse caso, pode-se dizer que neutralidade nem existe. São infinitas variáveis.

Portanto, hoje em dia considero praticamente impossível que um fone forneça uma performance perfeitamente neutra e passiva em qualquer gênero musical. Vejo o JH13Pro, por exemplo, que tem a melhor apresentação de rock que já ouvi, mas que pode soar escuro e relativamente sem vida na reprodução de violinos em música erudita. Não podemos nos esquecer, também, que boa parte dos rocks mais pesados possuem um alto nível de compressão, o que por si só já inviabilizaria uma reprodução absolutamente fiel à performance original. O que esse fone faz, portanto, é simplesmente mostrar o que está entrando. Se não é perfeito… o resultado também não será.

Tendo isso em mente, posso dizer com convicção que o Orpheus está muito certo com o que apresenta – peças acústicas provam isso –, mas gêneros mais adulterados sofrem um pouco; o que, logicamente, não é culpa do fone. Ouvindo rock clássico, como Jimi Hendrix, isso fica claro. Na época, tínhamos gravações com muito menos artifícios, e por isso, o que o HE90 me mostra é muito mais realista e não cai para o lado da frieza.

 

CONCLUSÃO

O Sennheiser HE90 é, sem a menor sombra de dúvidas, o melhor fone de ouvido que já pude ouvir. Praticamente tudo o que falei a respeito do SR-007 é simplesmente melhor no caso do Orpheus. Sendo justo, não pude ouvir o Stax com um amplificador melhor, mas tenho certeza de que ainda nesse caso, o aumento de performance não o faria chegar no nível do Sennheiser – pelo menos para o meu gosto.

HE90

Ele é muito melhor que tudo o que já ouvi, muito mais convincente. O único problema que tenho com esse fone – os agudos – me parece ser um problema na fonte, e não no fone. Podem ter certeza, fora essa pequena ressalva com as regiões mais altas (e tenham em mente que ela só existe em rocks pesados, como hard rock e metal, e ainda assim não todos), não existe nada que eu mudaria nesse fone.

Várias pessoas acusam o HE90 de ser eufônico e ultimamente não tão neutro, mas devo discordar veementemente. O que ouço dele está léguas à frente de qualquer coisa que já tenha ouvido num fone de ouvido.

Além das características mais comuns a serem observadas em equipamentos de audio, existem outras menores, mas que são fundamentais na composição de uma reprodução realmente fiel. O corpo, o tamanho dos instrumentos, como eles se portam no espaço… é claro que esses aspectos são dependentes do sistema como um todo, mas quem dá a última palavra é o final da cadeia – nesse caso, o Orpheus.

E é aqui que ele dá seu ultimato. Aquela palavra que usei no início, organicidade – a qual peguei emprestada do dono do set – representa exatamente o que o HE90 faz. Ele soa orgânico, o que não deixa de ser uma contradição; como pode um equipamento que mostra exatamente o que está passando por ele aparentar dar vida ao que se ouve? Arrisco dizer que o fato de ele se isentar de dar toques à música faz com que, no final das contas, o que ouvimos seja justamente mais vivo. É o que é, e não o que o fone quer que seja. O tamanho dos instrumentos, o corpo, o palco, o peso, as reverberações, os respiros, os dedilhados, os sopros…

É um retrado do que aconteceu. É real.

 

Ficha Técnica

Sennheiser Orpheus – fora de produção (entre US$ 8.000 e US$20.000 no mercado de usados atualmente)

  • Driver eletrostático push-pull
  • Sensibilidade (1kHz): 98 dB/100V r.m.s.
  • Resposta de Frequências: 7-100,000 Hz (-10 dB); 14-85,000 Hz (- 6 dB); 25-75,000 Hz (- 3 dB)
  • Bias Voltage: 500V

Equipamentos Associados:

  • Transportes: iMac, MacMini
  • DACs: Electrocompaniet ECD-1, Cambridge Audio DacMagic
  • Amplificação: HeadAmp Aristaeus
  • Energia: AC Organizer LC111
  • Cabeamento: Acoustic Zen Krakatoa, Acoustic Zen Silver Reference II RCA
12 Comments
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  • Esse sim é um review que esperávamos, mas que suspeitávamos do resultado: Orpheus >>>>> World.

  • leo, quer me matar de curiosidade é?eu não resisti e acabei lendo por fim fiquei muito curioso mas vou tentar resisitir a essa força que vem a minha mente
    e parabéns pelo review

  • Faithless – João Carlos

    Som “State of Art”… Mas quem pode ter um desses? Então… Fica aquela sensação.de: “Eu tenho um simulador de partículas e posso criar um buraco negro que irá engolir a terra”… REZO para que as grandes trabalhem para colocar no mercado fones que busquem esse patamar com preços e disponibilidade tal qual faz a Bugatti com seu Veryon. Caro claro !!! E acredito que muitos pagariam 2000-3000 dólares por um fone “perfeito”….Mas disponível. Ademais, agora que a STAX está nas mãos da “popular” EDIFIER o que podemos esperar??? Emocionante review para um emocionante assunto. Grande abraço a todos !!!

    • João, pois é, é engraçado ver que a diferença do Orpheus pro “segundo fone mais caro” é muito grande! Quer dizer, era, hoje em dia com o 009 essa diferença diminuiu, mas ainda assim o Orpheus, em termos de preço, luxo e “exorbitância”, ainda tá no topo.

      Hoje existem fones de altíssimo nível – vide HD800, SR-009 e Audez’e LCD3 –, mas nenhum “statement product”, quer dizer, mesmo o novo Stax não é edição limitada e em aspectos técnicos e de produção ainda parece mundano; ao contrário do Sennheiser, com diafragma carregado com partículas de ouro, cups de zebrawood e grades de vidro.

      Enfim… se tudo der certo, em pouco tempo estarei com um 009 em mãos! E aí vai ser páreo duro!

  • Caio Henrique

    ola,olha sem duvida alguma o seu blog ate agora é o melhor que vi na internet e melhor ainda em português e mesmo usando termos mais ”expert” nao é algo para nós noobs no mundo audiophile nao consigamos aprender,falando em aprender aprendi muito com o seu blog so peço por mais posts mas nao sei se tem tempo para o blog tambem.. e andei ”funçando” no google sobre esses fones da stax e estou muito curioso sobre o entry level deles o sr 207 sabe de algum lugar em são paulo que posso testa-los?e sobre o sr-009 ele é muito melhor do que o sr-007 que justifique o dobro do preço?e quanto seu amigo pagou no sennheiser he90?(apenas curiosidade) vi anuncios no ebay por 12 mil so o fone e 30 mil com o amp incluso é realmente um fone para poucos muitos poucos haha

    • A Stax não tem revenda oficial no Brasil, então não, não é possível testar o SR-207, a menos que vc teste o de alguém.

      Sobre o SR-009, tecnicamente ele é sim melhor que o SR-007, mas, mesmo sem nunca ter ouvido o 009, sei que é questão de gosto. Alguns acham que o 009 supera o Orpheus e a maioria acha que supera o 007, mas há quem o prefira. Então valer o dobro do preço é puramente questão de gosto.

      Meu amigo comprou o Orpheus há algum tempo, e pagou um preço muito justo por ele, mas prefiro não dizer quanto já que ele costuma preferir ser muito discreto com esses assuntos.

  • Fantástico review. Tenho que registrar esse ganho de excelentes e muito bem colocadas opiniões sobre esse magnífico fone. Obrigado Leo.

  • Gustavo Jungmann Vieira

    Orpheus não é Bugatti Veyron e sim Bugatti Type 57SC Atlantic 1938 ou já que a marca é alemã Mercedes Benz SSK Count Trossi.
    Sendo ambos carros e fones de ouvido obras de arte atemporais.

    • mindtheheadphone

      Sim! A única diferença é que o Orpheus tem a tecnologia do Veyron! Mas é, certamente, uma verdadeira obra de arte.

      Um abraço!

    • Diego Amaral

      Resumindo na minha opinião, um Pagani Huayra. Perfeito!